A musa traiçoeira




Gilberto estava cansado. Gilberto deitou-se. O chão era quase tão gelado quanto os julgadores corações humanos. Gilberto chorou uma última vez. Ele sabia. Tinha a mais absoluta certeza. Seria a última vez. O último choro, a última alegria, o último prazer, o último suspiro de alívio. Gilberto desistira da Felicidade; era ela apenas uma musa inalcançável, dama intocável, ídolo imune e indiferente a seu desespero e desgraça.
“Felicidade... Maldita rainha das meretrizes mais imundas dos subúrbios mais decaídos!”
Gilberto desdenhava aquela que já não lhe olhava nos olhos, que fazia questão de não permitir-lhe seu gosto cálido, que dançava diante dele de orgulho inflado.
“Muitos tocam-me, beijam-me, provam-me, e tu nada podes... Coitado e miserável Gilberto... Alguém acaso lembra ainda quem és?...”
O corpo envenenado de tristeza e amargura treme convulsivo. O frio não se faz sentir mais. A madrugada segue calada, seu silêncio a confortar as almas moribundas das esquinas. O coração acelera, os dentes batem-se, a saliva escorre densa, os olhos desfocam, piscam velozes, e, então, fecham-se. O último suspiro de alívio. Gilberto fugiu da vida. Morreu de overdose.
Felicidade respirou fundo e virou-se. Uma lágrima silenciosa caiu sobre o corpo vazio de Gilberto. Ela não podia tocá-lo. O sangue corrompido não permitia. A falsa felicidade o seduzira, tomara seus lábios, sua mente e sua alma. A verdadeira, a cheia de amor, não se aproximava. Gilberto não deixava. Seu coração já pertencia à outra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As glórias de Eva

Borboleta - O clamor das asas