Ilustrações e escritos, ficcionais ou não, por Maria Eloise

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Peitos


Aí do nada eu tenho vontade de escrever sobre os meus peitos. Não seios, não mamas. Peitos. Assim como homens falam grosseiramente. Escreverei sobre esses atributos que me fazem mulher assim com minha vagina.
            Por que o espanto? Eu sou mulher. Tenho meus peitos e minha vagina, e todo mundo sabe disso. Tenho meus cabelos compridos e castanhos, minhas unhas longas e pintadas, meus lábios cheios e sensuais, meus quadris e coxas que sugerem uma fertilidade que ainda não tive como comprovar. Como qualquer mulher, tenho meus peitos de mamilos rígidos quando se libertam da prisão do sutiã. Ou quando sinto frio. Ou nos não tão raros momentos em que um estranho calafrio me percorre o corpo. Às vezes até sem motivo algum, trazendo sutil constrangimento para mim e para quem os vê, constatando, pelos dois pontos de destaque na blusa, que estão fora da prisão.
            Não sei dizer o tamanho – e não estou falando do número do meu sutiã. Tem vezes em que eles, comportados, cabem direitinho nas minhas mãos, macios e frios, sendo afagados como uma recompensa por mais um dia que passaram sufocados. Há outras em que, mesmo com meus dedos bem afastados, minhas mãos quase não os comportam; levados. Talvez eles também tenham oscilações de humor junto comigo.
            Acho engraçado quando meus peitos balançam enquanto corro. E até quando é com minhas amigas. Podemos rir daquele par de desajeitados sem nos preocuparmos em ofender, pois todas sabemos que isso acontece com quem tem uma “comissão de frente” considerável. Quem tem a sorte de não viver esse constrangimento geralmente se lamenta por “falta de peito”, mas eles estão lá. Pequenos e graciosos, combinando mito bem com seu corpo magro e delicado.
            Para finalizar, gosto dos meus peitos livres enquanto tomo um banho relaxante. Um banho daqueles tomados sem pressa antes de dormir, no qual posso desfrutar de cada gota de água fria que acaricia minha pele. Gosto também de, de vez em quando, dormir com os peitos livres, protegidos apenas pelo lençol, por meus braços e por um bicho de pelúcia. Pensando bem, já faz um tempo. Acho que vou dormir assim hoje.
            Sou mulher. Tenho meus peitos. Eles estão expostos. Cobertos, mas expostos. Todos os vêem e estão cientes de que eles existem.
            Aí do nada eu tenho vontade de escrever sobre os meus peitos. São meus peitos, por que não poderia?

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