Cor Leonis [+18]



           Trabalho no café Cor Leonis há quase um ano e, apesar de eu ser apenas uma garçonete, até que recebo bem para um meio período. É que estou cursando literatura na faculdade e moro sozinha em um pequeno apartamento alugado, já que meus pais não gostaram nada de eu ter escolhido um curso que eles sempre consideraram como “sem futuro”. Até que lido bem com essa minha rebeldia e acabei me tornando bem responsável, mas como ninguém é de ferro ás vezes saio para me divertir com colegas do trabalho e da faculdade. Eles são bem divertidos. Às vezes algum cara me chama para sairmos sozinhos e eu aceito. Sou uma garota de 20 anos solteira, por que não aceitaria? Não é sempre que rola sexo, mas nas raras vezes em que me deixo levar procuro aproveitar bem.
            Terminei com meu segundo namorado no final do ano passado e desde então não me apaixonei. Quero dizer, não até...
            - Marie! Leve esse expresso para a mesa 13, por favor. – a voz urgente de Mikaella me arranca de outro devaneio.
            - Sim, Mikke. – respondo um pouco nervosa. São 19h15min e eu já sei quem pediu aquele expresso duplo.
            Equilibro a bandeja por entre as mesas e então, sentindo que ruborizava levemente, alcanço aquela mesa afastada das outras. E como sempre ele me aguardava.
            - Olá, Marie. – ele me cumprimenta.
            - Boa noite, senhor. Seu expresso. – digo servindo num pires a caneca de porcelana preta com o líquido fumegante.
            - Obrigado. – ele responde sem tirar os olhos cor de mel de cima de mim enquanto eu apenas encaro o vapor que se ergue do café. – Pode me trazer ma fatia de bolo de morango, por favor?
            - Claro, num instante. – anoto seu pedido e me afasto na direção do balcão. Ouço seus dedos ágeis no teclado do laptop que ele sempre trás consigo.
            Aviso à Mikke sobre o outro pedido da mesa 13 e ela rapidamente prepara uma fatia do meu bolo de morango. Sim, sou eu que faço o bolo. Coro pensando que aquele homem, que com certeza é apenas alguns anos mais velho do que eu, pede apenas o meu bolo para acompanhar seu expresso. Sei que é algo bobo, mas nem com meu primeiro namorado eu me senti assim. Fora que é muito constrangedor se sentir assim por um cliente.
            Com “assim” eu quero dizer apaixonada. Apaixonada por aqueles cabelos negros e volumosos que se ondulam até o pescoço. Apaixonada por aqueles olhos amarelados que me encaram por trás das lentes dos óculos finos. Pelos lábios visivelmente macios que eu tanto imagino sobre minha pele. Pelo rosto adornado com uma barba que ele insiste em deixar mal feita. Parece até saber que eu já me pegara muitas vezes imaginando meu rosto sendo arranhado suavemente por sua pele áspera. E ainda há sua expressão concentrada enquanto digita velozmente em seu laptop...
            - Marie, acorda! Você está olhando esse bolo há quase três minutos, sabia?
            - Desculpa Mikke! – eu havia partido em devaneios outra vez no meio do serviço. “Preciso parar com isso” é algo que repito para mim há quase cinco meses, mas quem disse que eu paro? É só aquela voz rouca dizer “olá, Marie” que lá vou eu para o mundo da lua. E como ele descobriu meu nome? Bem, com certeza teve ter escutado algum dos funcionários me chamando. Lembro que fiquei um pouco constrangida quando ele me chamou pelo nome pela primeira vez.
            - Aqui, senhor. Desculpe pela demora. – digo retirando o prato da bandeja. Ele sorri para mim em resposta.
            Num momento de distração muito inoportuno, acabo segurando o prato de mal jeito por conta do peso do bolo e quase o derrubo sobre a mesa, mas então sinto dedos compridos sob os meus me ajudando a evitar uma tragédia.
            - Opa! Cuidado, Marie. – ele diz com os olhos nos meus, retirando o pequeno prato de minha mão e pondo-o sobre a mesa.
            - Me... Me perdoe, senhor. – digo sentindo-me corar violentamente.
            - Tudo bem, mas... Aconteceu alguma coisa? Você não é de se descuidar assim, Marie. – seu tom de voz e sua expressão revelam alguma preocupação. Tenho vontade de enterrar minha cara no chão.
            - Não. Não aconteceu nada. Desculpe. – digo para então me afastar rapidamente da mesa.
            - Marie! – ele me chama.
            “Por que não para de dizer o meu nome? Pare de dizer meu nome!” penso ao perceber que aquilo só faz meu coração bater forte a ponto de me deixar sufocada. Sinto vontade de chorar. Que idiotice! Sentir o ar faltar por alguém que eu mal conheço. É o cúmulo do sofrimento por um amor platônico. E nem virgem eu sou para sofre por um amor platônico. Sinto-me desprezível. Uma idiota com falta de ar e com um nó na garganta.
            Vou até o banheiro dos funcionários e me olho no espelho esperando encontrar uma babaca se debulhando em lágrimas de vergonha. Porém o que está a minha frente é o reflexo de uma morena nervosa e ofegante me fitando com seus olhos azuis, a maquiagem quase imperceptível. Resolvo lavar o rosto para ver se me acalmo um pouco. Sentindo a água gelada sobre minha pele, percebo o quanto estou febril. Meu rosto continua vermelho embora mais suavemente. Pequenas mechas de minha franja escapam dos grampos e do gel seco, mas meu coque continua no lugar, pelo menos.
            “Preciso voltar ao trabalho...” penso pegando folhas de papel para secar o rosto. Minha pouca maquiagem já era, então faço o possível para voltar, no mínimo, de cara limpa. Umedeço e prendo as mechas rebeldes de volta no lugar e então me examino. Não estou tão mal assim.
            Saio me forçando a não olhar na direção daquela mesa, sabendo que, como todas as noites, ele continuaria lá. Bebericando seu expresso, comendo lentamente seu bolo e digitando seu interminável texto até que fosse hora de fechar. E como toda noite eu teria que ir até lá para pedir, com o coração se lamentando, que ele fosse embora. Ele então esculpiria um sorriso perfeito, mesmo que pequeno, e me dirigiria seus olhos de mel quente para que eles derretessem o gelo dos meus. “Obrigado por me acordar, Marie” diria se referindo à sua ávida concentração ao digitar. Depois de pagar a conta, deixaria uma boa gorjeta em minha mão. Nunca deixava as moedas sobre a mesa, mas na minha mão. “Tenha uma boa noite, Marie” concluiria fechando seu laptop e se levantando para ir embora. Outra vez eu suspiraria pesadamente ao vê-lo cruzar a porta de vidro. Outra vez eu não perguntaria o seu nome.
            A cafeteria já está pouco movimentada e, como eu disse, ele continua na mesa. Esperava que ele estivesse, como sempre, com os olhos correndo pela tela brilhante a sua frente, porém, para minha surpresa, eles me fitavam com uma intensidade desconcertante quando finalmente resolvo olhar em sua direção.
            Não consigo desviar meu olhar do dele. É tão doce que me sinto aprisionada. Coro apenas levemente apesar de meu coração estar disparado a ponto de fazer minha blusa azul marinho vibrar no mesmo ritmo de minhas palpitações. Começo a sentir falta de ar, então respiro fundo tentando me recompor atrás do balcão. Ele entreabre suavemente os lábios e põe os óculos sobre a mesa. Ao desviar os olhos dos meus, dá um longo gole em seu expresso, encaixa os dedos em suas rebeldes mechas negras e apóia a testa na palma de sua mão direita. Parece cansado... Será possível que ele esteja se sentindo como eu? Não, provavelmente não. Deve ser só o trabalho sugando suas energias. Pensar que um lindo desconhecido esteja sentindo o mesmo que eu seria fantasiar demais, mesmo para uma idiota apaixonada.
            Os últimos clientes acabaram de se retirar e ele continua lá. Mais uma vez preciso avisar que são quase 21h.
            - Senhor, nós já estamos quase para fechar.
            - Ah, sim. Obrigado por me acordar, Marie. – ele diz com um amável sorriso. – Pode trazer mais dois pedaços do seu bolo delicioso para viagem e a conta, por favor?
            - Claro senhor. – respondo polidamente e depois de retirar o prato e a caneca vazios, sigo para o balcão, aviso à Mikke sobre o pedido de última hora e aguardo silenciosa.
            “Por que ele pediu mais duas fatias?” começo outra vez a pensar demais. “Será que terá companhia esta noite? Ah, o que importa? Aliás... Como ele sabe que o bolo é meu? Não. Já chega. De que adianta ficar pensando nisso? É óbvio que ele sente alguma simpatia por mim, mas é só. Não tem por que alguém que parece tão ocupado e dedicado se interessar por uma garçonete. Mesmo que fosse só para... Não! Ele não tem jeito de quem se rebaixaria a isso.”
            - Aqui Marie. Pode levar. – diz Mikke pondo a nota fiscal e a embalagem plástica com os bolos sobre minha bandeja. Carrego-a até aquele canto afastado e ponho seu conteúdo sobre a mesa. O cliente rapidamente olha a nota fiscal e saca sua carteira. Outra vez ele tem o valor certo da conta e coloca o dinheiro na pastinha de couro.
            - Eu não esqueci sua gorjeta, viu Marie? – diz ainda sorrindo.
            - Obrigada. – digo aguardando ele retirar as moedas da carteira. Em seguida, estendo a mão para que seus dedos as pusessem em minha palma.
            Foi o que aconteceu, mas, em vez de afastar sua mão logo depois, ele fecha seus dedos sobre os meus. Meu coração acelera novamente enquanto ele mantém seu olhar sobre minha mão. Quase posso sentir o mel de seus olhos se derramando sobre ela. Ele aperta os dedos levemente e então me solta.
            - Tenha uma boa noite, Marie. – ele diz colocando os óculos pendurados na gola “V” de sua blusa verde musgo. Pega sua jaqueta jeans preta e veste apenas uma das mangas, fecha seu laptop e o põe de baixo do braço. Com a mesma mão, pega a embalagem com os bolos e se afasta.
            - Boa noite... – digo para suas costas enquanto ele atravessa a porta de vidro.
            - Suspirando apaixonada, é? – pergunta Mikke por trás de mim. – Ele não tem uma namorada, não é? Por que não o chama para sair? Ele é bem bonito.
            - Porque eu sei qual é o meu lugar, Mikke. Para ele eu não devo passar de uma garçonete bonitinha...
            - Ah, valeu! E eu não passo de uma caixa de cafeteria. Ah qual é? Nós ainda somos seres humanos e temos o direito de sair para namorar!
            - Mas ele é nosso cliente, Mikke. Eu não me sentiria bem saindo com alguém que é cliente no lugar onde trabalho. Aliás, você sabe como ele descobriu que sou que faço aquele bolo de morango?
            - Sim, eu que contei. – fico de queixo caído ao ouvir isso. – Uma vez ele veio aqui de tarde, mas como você só vem à noite, nós ainda não tínhamos o bolo de morango que ele tinha pedido. Desde então ele só vem de noite.
            -É mesmo...? – digo corada e pensativa. Aquilo era novidade para mim. – Enfim! Vamos logo arrumar as coisas por aqui.
            Ela concorda e nós vamos ajudar os outros funcionários a limpar a cozinha e arrumar as cadeiras e as mesas. A tarefa é cansativa, mas pouco antes das 22h já estamos todos prontos para ir embora. A noite está fria, então eu solto meus cabelos e fecho todos os botões do meu casaco marrom por cima do uniforme.
            Pretendia tomar um ônibus para casa, mas percebo assustada que alguém me espreita encostado à parede de tijolos logo ao lado das janelas de vidro do Cor Leonis. Eu precisaria passar por aquela silhueta imóvel para chegar até o ponto de ônibus. “Não acredito nisso... Por que eu sou a única que precisa dobrar a esquina para pegar o ônibus?” penso tendo certeza de estou em perigo. Então noto que se trata de um homem quase uma cabeça mais alto que eu.
Ele me dirige firmemente seu olhar. É um olhar quente de onde emana o tom do mel mais doce.
- Olá Marie. – diz aquela voz rouca com uma intenção que não consigo decifrar de imediato.
- Olá senhor. – respondo com a voz abafada. Meu coração dispara outra vez.
- Estava indo pegar o ônibus? – ele se aproxima. Confirmo com a cabeça. - Quer que eu te leve em casa?
-Não. Não precisa se incomodar. – respondo já com a voz falha.
-Então... Posso te levar para minha casa? – pergunta parecendo hesitante.
Para a casa dele... Ele me esperou aqui fora por quase uma hora e me convidando assim, tenho certeza do que quer. Eu sei que pode estar só brincando comigo, sei o que eu disse sobre ele ser cliente da cafeteria, sei que posso sair machucada já que eu o amo de verdade. Estou ciente de tudo isso, mas já não importa. Nunca terei chance como essa na minha frente outra vez.
- Si... Sim senhor. – respondo tímida.
Ele se aproxima mais e segura meu queixo entre o indicador e o polegar. Com os dedos da outra mão acaricia meu maxilar e então lentamente os deixa escorregar até minha nuca, onde encaixa a mão firmemente. Fecho meus olhos instintivamente.
- Pode me chamar de Bruce. – ele murmura com o rosto tão próximo do meu que consigo sentir os vestígios de café em seu hálito.
“Bruce...” penso pouco antes de ter seus lábios tocando os meus pela primeira vez. Ele começa devagar, apenas roçando os lábios e me enchendo de expectativa. Parece pedir minha permissão para prosseguir, então a concedo abrindo a boca aos poucos para recebê-lo. Bruce encaixa sua boca na minha, mas ainda sem usar a língua. O beijo avança torturante de tão lento e eu sinto meu coração quase na garganta. Quando finalmente resolve me deixar prová-lo melhor, envolve-me com seus braços fortes protegidos pelo tecido grosso da jaqueta.
Comprovei que os lábios e a língua de Bruce são tão doces quanto seu olhar. O olhar que me capturou desde a primeira vez que cruzou com o meu. Do mesmo modo, neste momento estou sendo capturada por sua boca desejosa e deliciosa. Por vezes precisamos parar para respirar, pois o beijo se torna muito intenso. Bruce escorrega suas mãos até minha cintura e me puxa para si, colando nossos corpos. Seu coração está tão inquieto quanto o meu. Arfo ao perceber isso e levo minhas mãos até sua nuca. As mechas macias e volumosas de seus cabelos se enrolam em meus dedos. Sua barba mal feita arranha meu queixo e a pele fina de meus lábios. Acabo ficando excitada e percebo que ele também. Então nos separamos arfantes e levemente febris.
- Vamos logo? – pergunta sem desviar seu olhar quente de desejo.
- Vamos. – respondo ofegante.
Ele abre para mim a porta do lado do carona de seu carro prateado. Comum, mas para mim era como a carruagem da Cinderela. Eu entro e ele fecha a porta, dá a volta pela frente do carro e entra. Assusto-me de leve ao receber um beijo no canto da boca quando ele se inclina sobre mim para puxar o sinto de segurança.
Depois de travar meu sinto e o seu, ele dá a partida. Seguimos calmamente pelo transito tranqüilo da noite e praticamente a cada minuto que passa eu o observo atentamente. Bruce ofega quase imperceptivelmente com os lábios entreabertos. De vez em quando passa os dedos compridos pelos cabelos. Noto como esses atos o fazem parecer cansado por algum motivo, e então tenho um flash de algumas horas atrás. Foi quase exatamente assim que ele ficou depois de me encarar por trás de suas lentes, lá no Cor Leonis. Então aquilo era desejo. Bruce me desejou naquele momento tanto quanto eu e, no entanto ainda estávamos muito distantes um do outro. O que pensei ser cansaço na verdade era frustração por não poder me ter nos braços no mesmo instante.
Chegamos ao seu apartamento, num prédio muito melhor que o meu, em um silêncio massacrante e até constrangedor, pois ambos temos total ciência do porquê de eu estar ali. Bruce segura minha mão e a aperta levemente. Sinto uma corrente percorrer todo meu corpo e respiro fundo. Percebendo meu nervosismo ele me olha com carinho e me lança aquele pequeno e perfeito sorriso.
- Ainda dá para voltar atrás, Marie. Embora eu não queira que isso aconteça... – diz com a voz pesada e apertando um pouco mais meus dedos. Acabo percebendo que ele treme levemente.
Todas as reações corporais apontam que Bruce me deseja. Não sei se sente por mim o mesmo que sinto por ele, mas se continuar pensando nisso talvez eu realmente fuja. E eu não quero isso! Quero tê-lo para mim pelo menos esta noite. Posso apenas fingir que ele me ama e então me entregar completamente ao toque caloroso de seus lábios e de suas mãos.
- Não vou voltar atrás. Eu quero isso. – digo firmemente e depois, mais timidamente e desviando meu olhar para o chão, continuo – Só gostaria que você fingisse, pelo menos um pouco, que gosta de mim de verdade. – sinto meu rosto esquentar.
Bruce, então, puxa-me de repente e me aperta contra seu peito firme. Posso sentir seu hálito quente em minha orelha quando sussurra:
- Eu não preciso fingir. Eu te amo, Marie.
Meus olhos marejam instantaneamente e sinto seu coração no mesmo ritmo que o meu. “Será verdade?” Suas palavras parecem tão reais quanto o amor que eu sinto por ele. E levada por esse sentimento, não consigo mais me segurar.
- Eu te amo, Bruce. – declaro dizendo seu nome pela primeira vez e deixando algumas lágrimas correrem.
Ele segura meu rosto com delicadeza e me beija suavemente, guiando-me às cegas até seu quarto onde, depois de entrarmos, ele não se preocupa em fechar a porta. Sento-me na beira da cama e ele beija meu pescoço enquanto desabotoa meu casaco. Livra-se dele rapidamente junto com sua jaqueta e, lançando-se para mim, faz com que eu suba mais na cama pondo um dos joelhos entre minhas pernas. Deito-me arfante enquanto o observo tirar a blusa de maneira urgente. Bruce fica sobre mim e ataca minha orelha esquerda lambendo e mordiscando o lóbulo. Começo a gemer baixinho ao senti-lo escorregar as mãos por minha cintura até chegar aos meus seios, infelizmente ainda por cobertos pela blusa de meu uniforme, enquanto seu joelho pressiona levemente minha intimidade. Seus dedos alcançam os dois únicos botões que abrem um discreto decote em meu uniforme e os desabotoa.
- Depois eu compro outra para você... – murmura contra minha orelha para então rasgar minha blusa com uma facilidade que eu não esperava. O ligeiro susto que levo em vez de me causar algum medo acaba me excitando mais.
Puxo-o pelo pescoço e inicio um beijo voraz. Nossas línguas se provam como se em cada espaço encontrado houvesse um sabor diferente. Ele termina de rasgar e atira longe aquele agora inútil pedaço de pano. Enrosco meus braços em seu pescoço e puxo levemente seus cabelos. Então sou erguida por uma única mão enquanto a outra cuida habilidosamente do fecho de meu sutiã cor de vinho. Bruce leva os lábios de volta ao meu pescoço e os desliza pelo meu colo até chegar aos meus seios agora nus. Sua barba arranhando todo o trajeto me faz arrepiar inteira. Ele experimenta um mamilo com a ponta da língua e o outro com os dedos enquanto eu crio um ritmo com meus quadris e me atinjo com seu joelho vária vezes. Quando minha coxa encosta em sua excitação, ele abre a boca para soltar um gemido quente e então abocanha meu seio direito.
- Ah... Bruce... – gemo sentindo sua língua e seus dentes em minha auréola. Ele lambe e chupa com a fome de um leão e ainda parece ter captado o ritmo que iniciei, fazendo seu joelho acompanhá-lo com destreza. Tenta levantar minha perna e percebe alguma dificuldade por conta das peças de roupa que ainda me restam. Sua boca abandona meu seio e ele me olha intensamente; o mel de seus olhos pegando fogo.
- Que tal nos livrarmos do resto, hein, Marie? – diz ofegante e sorrindo para mim de um jeito que eu não reconhecia. Não lembrava em nada o sorriso que ele apresentava na cafeteria e nem o que ele sorrira para mim ao entrarmos em seu apartamento. É um sorriso selvagem e sensual que me faz ficar com a boca seca.
Também ofegante, passo instintivamente a língua sobre meus lábios ressecados. Bruce abre mais seu sorriso, expondo os dentes brancos que me lembram os que são descritos nas lendas de vampiros: perigosos e tentadores de se ter na pele.
- Parece que você quer que eu mesmo tire... Tudo bem. – diz beijando minha testa. – Prometo que não vou destruir mais nada além da sua sanidade. – meu corpo estremece ao ouvir essas palavras. Já posso até sentir minha calcinha úmida e ele ainda diz uma coisa dessas. “Ah... Ele sabe disso.”
Vai descendo e distribuindo beijos lentos e cálidos pelo meu pescoço, meu colo e minha barriga. Minhas mãos ainda estão fixas em seus cabelos, mas quando ele se levanta para abrir o zíper lateral da minha saia, preciso soltá-lo. Bruce tira minhas duas últimas peças de uma só vez, deslizando as mãos por minhas coxas e pernas. Tira meus sapatos e depois os seus, fica de joelhos sobre mim e derrama o mel delicioso de seus olhos quentes sobre meu corpo nu. Seu olhar é o de um felino faminto e pronto para atacar sua presa vulnerável.
- Uau! Você é linda demais, Marie... – diz com a voz entorpecida de excitação e imediatamente começa a beijar meu ventre intensamente, suas grandes mãos apertando delicadamente a carne macia de minhas nádegas.
Dou um alto gemido ao sentir seus lábios em meu sexo, lambendo e mordiscando meu clitóris. Arqueio minhas costas instintivamente. Quero mais. Muito mais.
- Bruce...! – é tudo que consigo dizer com minha voz meio distorcida. Levo meus dedos de volta aos seus cabelos e puxo com mais força que antes.
- Isso mesmo. Geme meu nome, Marie.
- Bruce... – obedeço, recebendo mais duas mordidas no clitóris. Preciso de mais.
- Muito bem. Agora me diga: o que você quer que eu faça?
Não consigo articular palavra alguma e fico frustrada ao pensar que ele pretende continuar com essa deliciosa tortura.
- Não vai me dizer? Bom, eu posso adivinhar. Hum... Que tal isso...? – diz lambendo toda aquela região úmida. Arqueio novamente e começo a ofegar. – Ou isso... – diz para depois morder outra vez meu clitóris. Meus gemidos vão ficando cada vez mais altos. Apoio minhas pernas em suas costas trazendo-o mais para de mim.
- Não... Já sei! O que acha disso...? – conclui e começa a roçar a língua em minha entrada. Não consigo ficar quieta. Puxo mais forte seus cabelos e aperto minhas pernas em suas costas. Já não posso segurar as arfadas e gemidos que me sobem quentes pelo peito.
- É aqui, não é? É gostoso? – pergunta com a voz maliciosa como eu nunca ouvira antes.
- S... Sim... – respondo quase me sufocando.
- É mesmo? Então me peça mais... – murmura apertando os dedos em minhas coxas.
É torturante demais e Bruce sabe disso. Sabe quais reações provocar para que eu fique na palma de sua mão. Ou, no caso, à mercê de sua boca libidinosa. Estou ofegante e os fios do meu cabelo castanho-claro estão grudando em minha pele suada. Sua barba roçando naquela área de carnes ultra-sensíveis está me deixando louca. Concentro-me para reunir toda a sanidade e voz que me restam para suplicar.
- Bruce... Por favor... – gemo.
Ele me ouve com satisfação e começa a me penetrar com a língua.
Lanço a cabeça para trás e dou um longo e abafado gemido ao sentir meus músculos se contraírem em leves espasmos. Chamo seu nome algumas vezes, mas Bruce parece não se importar com o fato de eu já ter alcançado o orgasmo e continua a introduzir a língua em mim, movendo-a lentamente lá dentro. Logo fico excitada novamente e ouço com expectativa o som de seu zíper sendo aberto e do tecido áspero do jeans deslizando por suas coxas fortes. Ouço também um conhecido som de plástico laminado sendo rasgado.
Os lábios e a língua de Bruce me deixam e ele se concentra em vestir com o preservativo sua extensão ereta e rígida para a qual olho arfante, lambe meu gozo de seus lábios, separa mais as minhas pernas e então deixa sua ereção escorregar para dentro de mim de uma vez. Tento reprimir um grito de êxtase ao senti-lo se afundar por completo em mim. Nossas respirações estão pesadas, quentes e carregadas de excitação. Bruce começa a se mover muito lentamente e percebo que ele quer me “torturar” novamente.
- Você é deliciosa, sabia Marie? – murmura encostando os lábios quentes e úmidos em minha orelha e lançando seus quadris contra os meus.
Seguro seu pescoço e alcanço sua orelha com minha boca. Chupo e mordo seu lóbulo numa pequena vingança; agora é minha vez de ouvir meu nome entre gemidos despudorados e sensuais.
- Ah... Ah, Marie... Continua... – pede com uma libido desafiante na voz.
- Você quer mais, é? – digo passando a ponta da língua por toda a extremidade de sua orelha. Ele se arrepia inteiro. – Então para de me torturar e diga “por favor”...
- Por favor, Marie... – diz me penetrando fundo.
Arfo e volto a lamber seu lóbulo. Quando começo a mordiscar a parte da cartilagem, Bruce geme forte com sua barba roçando minha bochecha, aumenta sua velocidade e eu arranho sua nuca e seus ombros com minhas unhas. Beija-me com uma deliciosa volúpia fazendo com que sufoquemos nossos gemidos um na boca do outro. Nosso suor já escorre em gotas abundantes. O prazer do máximo êxtase é tudo o que buscamos um no outro agora. Buscamos de maneira urgente e selvagem as quais nunca esperei nem de mim e nem dele.
Bruce passa sua boca para meu pescoço e meu colo, beijando, lambendo, mordendo e chupando minha pele salgada. Sua barba áspera sendo impiedosamente esfregada em mim faz um estranho frio percorrer minha coluna de cima a baixo. Nossos quadris se movem tanto que posso escutar a estrutura da cama rangendo. Os gemidos agora são quase grunhidos animalescos. Falta pouco...
Dou um grito abafado e lanço minha cabeça para trás novamente ao sentir os espasmos de meu orgasmo. Sinto-me derreter por dentro. Bruce goza pouco depois de mim, gemendo meu nome com força entre dentes. Seu corpo pesa e treme sobre o meu. Nos beijamos suavemente com os lábios secos e trêmulos. Estamos exaustos e nosso suor molha a colcha de cama em baixo de mim. O quarto está abafado mesmo com a porta aberta e o ar está impregnado pelo cheiro quente de sexo.
Depois de me dar um beijo no queixo, Bruce retira-se de mim e joga o preservativo na lixeira próxima a mesinha de cabeceira. Desdobra um grosso cobertor vermelho com o qual nos envolve. Durante a consumação de nossa paixão, uma chuva barulhenta se iniciara sem que notássemos. O quarto logo se torna frio e eu me aconchego nos braços de meu amado.
- Você está bem, Marie? – Bruce me pergunta ofegante.
- E como... – respondo sorrindo.
- Eu também. – diz me apertando contra seu peito nu e suado. – E eu realmente não esperava que você fosse tão fogosa assim.
Acho graça e então respondo.
- Pensou que eu fosse alguma santa? – fito seus olhos e continuo – E eu não esperava que esses olhos fossem os de um leão tão faminto.
Agora ele é quem acha graça.
- Há ha! Sim, eu já tinha fome de você há algum tempo. E parece que estamos quites no quesito “surpreender o outro”. – diz me dando um beijo na testa. Ficamos em silêncio nos aquecendo um no outro. Nossas pernas estão enlaçadas e as respirações estão voltando ao seu ritmo normal. Sinto-me repleta de felicidade, mas...
- Olha... – falamos ao mesmo tempo.
- Desculpe. Pode falar. – digo séria.
- Não. Pode falar primeiro. – Bruce diz desconcertado.
- Não quero. Fala você primeiro. – retruco teimosa.
- Tudo bem... – ele respira fundo. – Marie, você... Você me ama de verdade?
Mesmo que eu já esperasse algo assim, a pergunta me pega de surpresa. Eu já sabia que seria só naquela noite, mas não precisava acabar tão rápido com a minha fantasia. Fico nervosa e com um nó na garganta, mas respondo com sinceridade.
- Amo sim. Eu te amo de verdade, Bruce. – sinto que vou chorar, mas então ele me aperta mais nos braços.
- Que bom... – diz parecendo aliviado.
- Eu ia te perguntar a mesma coisa, sabia?
Bruce me olha parecendo surpreso.
- Você ainda achou que eu estava fingindo?
- Bem, é que eu não... – começo a falar um pouco constrangida, mas Bruce me interrompe.
- Você acha que eu pareço alguém que flerta com uma garota por quase cinco meses e quando finalmente consegue levá-la para a cama, deixa apenas um recado e some? – dispara com ar de ofendido, mas então continua. – Se for isso vou até chorar ali no canto lamentando ter essa cara de safado. – termina dramatizando muito falsamente me fazendo dar uma gargalhada.
- Desculpe Bruce, mas eu nunca pensei que você pudesse se interessar por uma simples garçonete...
- Mas estou interessado e até agora satisfeito com a “simples garçonete”, viu senhorita? – diz me olhando com os olhos doces.
- Gostou tanto assim? – brinquei.
- Sim, muito. Você já disse duas vezes que me ama. – fico com o coração acelerado ao ouvi-lo dizer aquilo e me surpreendo ao perceber, com a mão em seu peito, que o dele também. – E como eu gosto de deixar tudo “quite” vou falar outra vez. Eu te amo, Marie.
- Obrigada Bruce. – digo sorrindo.
- Se for por não te rejeitar, eu também agradeço Marie.
- Você diz muito meu nome, sabia?
- Eu gosto do seu nome. Acho lindo e combina com você. Também gosto dos seus cabelos. – diz afastando minha franja da testa. – Também amo seus olhos cor de oceano. Tanto que poderia me afogar neles.
 Bruce diz palavras tão bonitas que fico até sem graça. Sinto-me aquecer por dentro.
- Você poderia escrever essas coisas bonitas que diz. Daria um bom romance, viu?
- Eu escrevo. É o que faço toda noite na cafeteria. – revela.
- Você é escritor? Sério? – pergunto bem surpresa com a novidade.
- Mais ou menos... Escrevo artigos de opinião para um jornal.
- E por acaso você pode escrever coisas românticas num artigo? – ironizo.
- Não. Eu não levo o meu trabalho para a cafeteria. Lá eu só escrevo sobre você. – ele diz e de repente tenho certeza de que estou tão vermelha e quente quanto um semáforo.
- E... E o que você escreve sobre mim? – pergunto um tanto constrangida.
- Ah, de tudo um pouco. Ficava imaginando sua vida fora daquele lugar de várias formas, das mais simples até as mais fantasiosas e sempre menciono seus olhos, seus cabelos, seu nome... Você sabia que é uma variante de “Maria” e significa “mulher que ocupa o primeiro lugar”? Por isso acho perfeito para você que é a primeira para mim, Marie. – diz e noto sua voz cansada.
- Parece um “stalker”, sabia? – brinco sorrindo.
- Todo mundo fica um pouco “stalker” quando se apaixona, não acha? – diz fechando os olhos.
- Quero saber mais sobre você... – digo também sonolenta.
- Eu também quero saber mais sobre você, mas fiquei esgotado agora... Sua culpa viu? – ele me aperta nos braços e respira fundo sentindo doce aroma de morango do meu shampoo. – Que tal sairmos amanhã? É sábado e eu estou não estou com trabalho acumulado. Você só tem que trabalhar a noite, não é?
- É. Tudo bem. Eu também estou cansada. – concordo deixando minhas pálpebras pesarem. – Boa noite Bruce.
- Tenha uma boa noite, Marie.
Adormecemos nos braços um do outro escutando o estrondo das pesadas gotas de chuva se chocarem contra o vidro da janela.
Já de manhã, ao abrir meus olhos, dou de cara com suas rebeldes mechas negras fazendo cócegas em meu rosto. Noto que Bruce, durante a noite, roubara a posição de conforto na qual eu adormecera, ficando com o rosto entre meus seios. Está até parecendo um gatinho preto protegendo os olhos do sol. Começo a afagar seus cabelos chamando seu nome com carinho. Ele desperta gemendo gostosa e preguiçosamente e então levanta a cabeça para me ver.
- Bom dia e... Obrigado por me acordar, Marie. – Bruce diz com sua voz rouca e com os seus olhos cor de mel parecendo mais doces do que nunca.
Olhos de um leão que teve seu coração domado.
Maria Eloise Albuquerque S.

12/08/14

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