Ilustrações e escritos, ficcionais ou não, por Maria Eloise

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Manhã seguinte

Acordei e a primeira coisa que pensei foi que o próprio Hélio estava batendo na janela a minha frente. Estava quente e meus olhos arderam intensamente assim que os abri. Minha cabeça começou a doer.

A segunda coisa foi que eu não reconhecia o lugar em que estava e nem lembrava como havia chegado lá. Encotrava-me em uma confortável cama com lençois verde-água.

Minha cabeça precisou latejar mais para que eu percebesse que a dor não fora originada pela luz da manhã. Aos poucos recordava da música, das pessoas, dos copos que chegavam cheios e iam apenas com o gelo no fundo.

A respiração quente em minha nuca me trouxe de volta ao presente. Senti meus pêlos se arrepiarem. Percebi um braço forte em minha cintura e um peito nu colado em minhas costas. Naquele momento inferi, com absoluta certeza, o que tinha acontecido naquela madrugada.

Tudo o que eu vestia era uma camisa preta (que, aliás, não estava abotoada) que era um pouco grande para mim e que cheirava a uma gostosa e embriagante colônia masculina. Poderia me viciar naquele cheiro como se fosse uma droga das mais perigosas.

Virei-me para ver de quem era a respirção que me fazia sentir aquelas cócegas agradáveis e, para minha surpresa, mechas macias de um cabelo ondulado acariciaram meu rosto. Eu poderia dar, pelo menos, duas voltas com aqueles fios negros em meus dedos. Senti o doce aroma de shampoo mesclado ao da colônia que empregnava a camisa.

Comecei a afagar os cabelos e observei a maneira como aquele rapaz misterioso me abraçava: escondendo o rosto em meu peito como se tivesse vergonha de se mostrar. Ou simplesmente estava protegendo os olhos dos raios ofuscantes do sol.

Passei a tocar os ombros largos e reparei em algumas trilhas, levemente inchadas e rosadas, que seguiam para os braços e que, muito provavelmente, foram provacadas por minhas unhas. Devo ter corado um pouco quando atentei para esse detalhe.

Finalmente o rosto se ergue e dou de cara com um par de olhos castanho-esverdeados. Ainda sonolentos, mas com um olhar carinhoso. Os lábios ,delicadamente desenhados, estavam secos assim como os meus. Depois de receber um suave beijo no queixo, pude sentir os vest´gios de limão e  álcool em seu hálito quando ouvi sua voz rouca dizer "bom dia".

(escrito em Outubro)


Ponto de Fuga

Tem gente que encontra nos sonhos uma fuga da realidade. Acho isso lindo. Mas eu não consigo. Pelo menos não literalmente. Quero dizer dormindo, sabe? Até por que eu nunca tive sonhos muito... como posso dizer? Sonhadores? Enfim! O que eu quero dizer é que a minha fuga desse mundo cinza não é quando eu durmo, mas sim quando estou acordada.

Sonhar acordada a qualquer momento. Não o tempo todo, mas em qualquer momento. Até quando deveria me concentrar em algo "mais sério" acabo, as vezes, partindo para algum delicioso ou tenebroso devaneio. Não sou doida. Pelo menos não a ponto de não ser conciente das minhas ações. Então, o que eu faço com esses devaneios? Desenho, escrevo, crio algum personagem que vai devanear por mim ou comigo. Ou viver meus devaneios. Muitas vezer interpreto meus personagens para desenhar ou descrever melhor suas expressões e/ou reações.

Também sonho acordada quando ouço música. Sério. Existem músicas que mexem com meu interior de um jeito muito louco. Algumas me fazem querer chorar, outras me trazem uma sensação de liberdade. Outras me trazem uma insanidade perturbadoramente bela. Enfim.

Esses são meus "pontos de fuga".

Eu amo escapar da realidade através dos meus "pontos de fuga".

(O texto acima foi escrito no dia 10/12. No dia em questão eu não tive nehum apoio musical, apenas escrevi. Hoje, dia da postagem, encontrei uma música no Youtube e fiquei ouvindo enquanto digitava. Combinou perfeitamente com o que eu senti enquanto escrevia.)