Ilustrações e escritos, ficcionais ou não, por Maria Eloise

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vestígios de um duelo

















De cima vem um olhar frio
de baixo um olhar suplicante
aqui dentro o ar é sufocante
lá fora, a noite é um pulmão ofegante

Sangue que sobe pela garganta
como a lava borbulhante do vulcão
bloqueando qualquer suspiro de vida
e despejando-se pelo chão

O luar refletia no peito suado
que buscava no ar impregnado
oxigênio para se manter

Depois do duelo travado
depois de suor e sangue derramados
só há um corpo vivo para a lua ver.
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Hoje, na aula de Teoria do texto Poético, a professora nos passou um texto e, depois de lê-lo, pediu que produzíssemos algo, em prosa ou verso, baseados no tema 'lá fora, a noite é um pulmão ofegante.'
Eu e minha dupla/colega de sala/amiga, Beatriz Góes (blog Caderno de Devaneios), produzimos o poema acima. Espero que tenham gostado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Fundo do baú

Num lugar vazio e escuro
há uma voz que grita e chora
pedindo ajuda, socorro

Ninguém a escuta, nem percebe
ela quer ser salva
de ser tragada pela escuridão

Encontrar luz, cores, brilho
algo que não seja negro,
porém tudo em volta dela
é Treva
Eu tava mexendo em uns cadernos e encontrei esse poema. Acho que estava na 7º ou 8º série(vivendo um momento de depressão).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Uma vela


Uma vela vermelha
uma masmorra
dois corpos que ardem
em chamas distintas

Uma lâmina prateada
um golpe impetuoso
um grito agudo de dor
um riso feroz

Em pouco já nada se ouve
a não ser pela respiração
ofegante e pesada
como fosse gerada por um gozo

Como testemunha apenas a vela 
cuja cera derretida 
mescla-se com o fluido da vida 
espalhado pelo chão

Passos pesados afastam-se
deixando rastros rubros apenas

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Fera Impetuosa

A seguir um poema que eu escrevi quando estava no ônibus. Eu estava um pouco triste por algo que ocorrera logo pela manhã.
As garras negras rasgavam a carne 
sem piedade
A boca faminta se manchava
a cada dentada voraz
Os olhos vazios tornavam-se vivazes
enquanto o brilho dos outros se esvaia

Carne dilacerada
Boca maculada
Vida roubada

Assim a fera impiedosa se mantém 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Parque (aquele conto prometido!!!)

       
 ‘A tranqüilidade da noite é algo perturbadoramente belo. ’ Era o que eu pensava enquanto caminhava pelo parque. As estrelas e a lua cheia a pouco haviam se mostrado, mesmo assim não havia movimento de pessoas. Como fosse alta madrugada o som do vento nas altas copas e dos meus passos era tudo o que se ouvia.
         Encontrei um banco oculto pela sombra de um imenso tronco de árvore e lá me sentei. Continuei a admirar a noite. Não conseguia pensar em mais nada além do frio que tomava conta do meu corpo, das trevas que me envolviam e das canções do vento em meus ouvidos.
         Por um momento pensei ter sentido um toque gelado em meu ombro esquerdo e instantaneamente um arrepio sinistro me percorreu o corpo. Não havia mais ninguém no parque. Abracei meus joelhos e fiquei encolhida no banco, tanto para amenizar o frio quanto para me convencer de que aquele toque havia sido apenas imaginação.
         “Não há mais ninguém aqui. Não há mais ninguém aqui.” Repetia para mim mesma. Estava assustada. Nem me lembrava no motivo de ter ido àquele parque. Queria ir embora, mas para onde? Não me lembrava do caminho até ali e nem de onde tinha vindo. Tudo que tinha comigo era um vestido preto com mangas de renda que batia nos joelhos e um par de sapatilhas cor-de-rosa.
         “Não há mais ninguém aqui.” continuava a repetir cada vez mais nervosa.
         “Não há mais ninguém visível aqui...” essas palavras de repente tomaram conta da minha mente. Tentei ao máximo pensar em outra coisa, sem sucesso. A frase se repetia sem cessar, eu já suava frio quando percebi que ela não era fruto de uma imaginação amedrontada. Ela era sussurrada por alguém bem perto de mim, bem ao pé do meu ouvido e que, como se tivesse notado minha reação, novamente me tocou. Dessa vez me envolvendo nos braços gélidos.
         Muito assustada por não saber o que era que me abraçava eu permaneci estática. Teria gritado, porém minha boca parecia bloqueada por alguma coisa. Era algo muito macio.
         Aos poucos, como se minha visão tivesse sido antes ocultada por uma névoa, eu começava a enxergar o que estava junto de mim. Notei primeiramente um par de lindos olhos amarelos destacados pela sombra dos cabelos negros. Depois, afastando-me um pouco, notei a pele extremamente pálida mesmo sob a sombra daquela grande árvore. O nariz e a boca eram perfeitamente desenhados no rosto fino.
         “Agora mais alguém visível aqui. Pelo menos para você.” Disse o rapaz que surgira, ainda me abraçando. Só então percebi, pela proximidade dele, que o que havia antes bloqueado a saída da minha voz eram seus lábios. Ainda sentia como se estivessem me tocando, pois meus lábios estavam frios como se os dele tivessem roubado-lhes o calor.
         Claro que aquilo tudo era no mínimo esquisito. O senso comum diria para eu me afastar dele e sair correndo, porém o tal ‘senso comum’ já havia me deixado há algum tempo, mais precisamente no momento em que fitei aqueles olhos sedutores. Eu já havia caído no seu encanto.
         Ele continuava com os braços em volta de mim, agora de maneira mais suave, parecia não temer que eu tentasse fugir dele. Eu lentamente começava a tocar-lhe os fortes braços descobertos com meus dedos tímidos.
         Reparei então nas roupas que ele usava. Calça de alfaiataria e uma camisa de botões com as mangas e as bordas rasgadas. Ele trajava negro assim como eu e a noite.
         Ele faz menção de me beijar novamente tocando meus lábios com os dedos e em seguida me puxando pela cintura. Eu por minha vez levara instintivamente minhas mãos até seu rosto para aproximá-lo do meu e ali iniciamos um beijo suave. Tão suave quanto à brisa que soprava naquele momento.
         “Quem é você?” perguntei com a voz baixa. Ele respondeu ao pé do meu ouvido “Você pode me chamar de ‘seu’...” com uma voz que parecia querer me possuir ali mesmo. Ele prosseguiu beijando meu pescoço ao mesmo tempo em que me pressionava contra seu corpo e, enquanto as carícias se seguiam, eu tinha cada vez mais certeza de que não era só impressão minha sentir que ele roubava meu calor. A cada beijo, e não só pelos beijos, mas também por estar com o corpo colado ao dele, percebia a diferença entre nossas temperaturas diminuir. Eu ficava cada vez mais fria, ele permanecia frio. E lá estávamos: dois corpos gélidos envolvidos num beijo que se aprofundava conforme o vento ficava mais forte. Um beijo que seria considerado ‘quente’, mas não. Tudo que ali havia era noite, vento, frio, sombras e dois corpos pálidos e frios como mármore vestidos com o manto da noite.
         Tirando os lábios dos meus por um momento ele me pergunta: “Você quer ser minha?” com a mesma voz sedutora de antes e eu, com um fiapo de voz respondi que “sim”. Porque ‘sim’? Porque ele me envolvera daquela maneira? Como pude me deixar conquistar por alguém que acabei de conhecer? E alguém que simplesmente surgiu na minha frente! Alguém que era gelado como um morto... Um morto? Ah, então era isso.
         “Quem é você?” perguntei mais uma vez. Ele então me abraçou bem forte. Desta vez parecia não querer me dar rota de fuga.
         “Você pode me chamar de ‘seu’, mas também pode me chamar de ‘noite’, de ‘frio’, de ‘sombra’, de ‘vento’, do que quiser. Só... continua comigo...”. Sua voz saiu quase como uma súplica. Eu não tinha mesmo para onde ir. Não tinha ninguém comigo, somente ele. Não encontrei motivos para recusar, então me entreguei. Entreguei-me à noite, ao frio, ao vento, senti meu corpo se fundir ao dele lentamente. Seu corpo gelado já não me era incomodo, era apenas curioso o fato de eu não sentir mais meu próprio corpo como sendo ‘meu’.
         Enquanto ‘perdia’ a mim mesma pensava nas pessoas que passariam pelo parque na manhã seguinte e encontrariam uma jovem de preto deitada num banco, com a pele pálida como o luar, sem o rubor da vida em sua face. Julgá-la-iam apenas como uma vítima do frio quando na verdade ela havia sido seduzida pelo beijo da morte e envolvida pelos braços da noite.