Ilustrações e escritos, ficcionais ou não, por Maria Eloise

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Versos sobre minha prosa

 

Gosto de cantar verso
Gosto de contar prosa
Gosto de causar angústia
Ou uma alegria gostosa

Mas uma dúvida incômoda
Invadiu meu coração
Tem a ver com a prosa crua
Que concebo de lápis a mão

Sei que sou poeta
A cada palavra que verso
Mas será que há poesia
Quando descrevo um meu universo?

Será que houve poesia
Cada vez que pari minhas histórias?
Ou as narrações foram um amontoado
De palavras aleatórias?

Há poesia na minha prosa?
Mas que tema foi esta glosa!

domingo, 17 de abril de 2016

Aos filhos da pátria amada




Nossas matas virgens
São vendidas a cafetões
Nosso ouro e nossas riquezas
São levados por ladrões

Nosso céu azul
É velado por carbono
Das estrelas morre a esperança
A sensação é de abandono


Muito se grita, muito se bate
E os de cima se riem
"O povo que se cate"

Irmãos, somos filhos desta terra
Ostentem a faixa de ordem
Que o progresso nos espera

quinta-feira, 3 de março de 2016

A musa traiçoeira




Gilberto estava cansado. Gilberto deitou-se. O chão era quase tão gelado quanto os julgadores corações humanos. Gilberto chorou uma última vez. Ele sabia. Tinha a mais absoluta certeza. Seria a última vez. O último choro, a última alegria, o último prazer, o último suspiro de alívio. Gilberto desistira da Felicidade; era ela apenas uma musa inalcançável, dama intocável, ídolo imune e indiferente a seu desespero e desgraça.
“Felicidade... Maldita rainha das meretrizes mais imundas dos subúrbios mais decaídos!”
Gilberto desdenhava aquela que já não lhe olhava nos olhos, que fazia questão de não permitir-lhe seu gosto cálido, que dançava diante dele de orgulho inflado.
“Muitos tocam-me, beijam-me, provam-me, e tu nada podes... Coitado e miserável Gilberto... Alguém acaso lembra ainda quem és?...”
O corpo envenenado de tristeza e amargura treme convulsivo. O frio não se faz sentir mais. A madrugada segue calada, seu silêncio a confortar as almas moribundas das esquinas. O coração acelera, os dentes batem-se, a saliva escorre densa, os olhos desfocam, piscam velozes, e, então, fecham-se. O último suspiro de alívio. Gilberto fugiu da vida. Morreu de overdose.
Felicidade respirou fundo e virou-se. Uma lágrima silenciosa caiu sobre o corpo vazio de Gilberto. Ela não podia tocá-lo. O sangue corrompido não permitia. A falsa felicidade o seduzira, tomara seus lábios, sua mente e sua alma. A verdadeira, a cheia de amor, não se aproximava. Gilberto não deixava. Seu coração já pertencia à outra.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

As glórias de Eva


Canta, mãe terra
Ou antes chora de desgosto
Por teus filhos ingratos
Presos a orgulhos inatos
O amor do peito já deposto

Chorem, mulheres
Na dor de parir
Um fruto corrompido
Do céu de sangue caído
E de quem a vida verão ruir

Geme, garota
A quem difamaram
Por teu jeito torto ou corpo dado
Não te culpes pelo humor dilacerado
De ódio e rancor é que te armaram

Lamenta, menina
Regrada na prece
Desnutrida de força
Para ser boa moça
Em cujo peito o orgulho perece


Gravidade

A tristeza profunda
Me entrega, contente,
O fruto da desgraça
Como fosse uma serpente

A Treva peçonhenta
Me afoga no medo
Me devora com a força
De um buraco negro

Abafo as feridas
E não canto alegre
Estes versos puídos
Às traças entregues

A alegria, mofada
Já não se debate
Aceitou seu destino
De porco no abate

Como ser da escuridão
Afugentei a luz
Vê este brilho de vida?
Ele não me seduz